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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Independência (linguística) do Brasil

 



Às margens do Rio Ipiranga, por volta das 16h30 do dia sete de setembro de 1822, D. Pedro I, no alto do lombo de uma mula e acometido por uma bela diarreia, bradou o “Grito da Independência” -  Independência ou morte!’ (seguido de uma flatulência), criando esse excelentíssimo feriado nacional que quase sempre podemos emendar.

 

E nesse sete de setembro de 2020, quero aproveitar a data (que cai numa segunda-feira, que beleza!), para fazer minhas primeiras análises agramaticais a respeito da língua que se fala aqui no Brasil, o brasileirês. Mentira, é o português mesmo mas por mera convenção.

 

Há alguns conceitos linguísticos dos quais não conseguimos não retomá-los para quando de uma explicação... linguística. Conhecimentos como as variedades que as línguas têm, que toda língua é fluida e viva, ou seja, não é estática, imutável, mas variável, entre outros. Isso é algo que sempre será levado em consideração toda vez que analisado de forma ampla.

 

E, partindo desses princípios, podemos entender que a língua utilizada aqui no Brasil é completamente diferente da que se fala nas terras lusitanas, embora tenham o mesmo nome! Contudo, há algumas diferenças importantes que nos levam a crer que temos sim uma independência linguística.

 

Vejamos a seguir uma tabela comparativa retirada do artigo do pesquisador Ataliba T. Castilho* (USP, CNPq).

 

Fonética e fonologia

 

Português Brasileiro

Português Europeu


7 vogais tônicas: a, ê, è, i, ô, ò, u. Não se distingue a vogal temática a no presente e no pretérito: falamos.

 

A vogal e se mantém como anterior média fechada antes de palatal: espelho, fecho.

 

 

5 vogais átonas pretônicas, e todas soam claramente: a, e, i, o, u.

Todas elas são pronunciadas, e assim, não se confunde de frente com diferente.

Nessa distribuição, não há distinção entre ê e è, e por isso pronuncia-se da mesma forma pregar um prego e pregar na igreja.

 

3 vogais átonas finais: a, i, u, estes escritos com e, o: pata, pede, peço.

 

8 vogais tônicas: a, ä, ê, è, i, ô, ò, u, distinguindo-se um a central baixo, como no presente falamos, de um a mais alteado, como no pretérito falämus.

A vogal e antes de palatal é dita â: ixpâlhu, fâchu.

 

 

8 vogais átonas pretônicas, em que ê fechado move-se para ë, como em pëqueno, mas a tendência é omiti-las, como em telefone [tulfòn], pedido [p’didu], etc.

Pedir num hotel um apartamento de frente será entendido como “um apartamento diferente”. Nessa distribuição, distingue-se ê de è, e por isso pronuncia-se diferentemente prêgar um prego e prègar na igreja.

 

3 vogais átonas finais: ä, ê, u.

 

 

O ditongo oral ey pode manter-se ou monotongar-se (terreiru / terrêru) e o ditongo nasal ~ey mantêm-se, como em bem, dito b~ey.

 

 

Esses ditongos soam como äy e ãy: t’rräyru, bãy.

 

Ditonga-se a vogal final seguida de sibilante: luis (luz), atrais (atrás).

 

 

Não há essa ditongação.

 

Sílabas terminadas por oclusiva recebem uma vogal, transformando-se em sílabas abertas: adevogado, abissoluto, pissicologia.

 

 

Essas sílabas continuam fechadas: advogado, absoluto, psicologia.

 

Pronuncia-se da mesma forma a consoante –l e a semivogal –w em posição final: o advérbio mal e o adjetivo mau são pronunciados da mesma maneira.

 

 

O –l é lateralizado, como no PB do Rio Grande do Sul, não se confundindo com a semivogal –w.

 

O r pode ser vibrante simples (caro), vibrante múltiplo anterior (carro), vibrante múltiplo posterior (Ru) ou velar surda (káxu).

 

 

Predomina a vibrante múltipla anterior, como no espanhol.

 

Morfologia

 

Português Brasileiro

Português Europeu

 

Simplifica-se a morfologia nominal, com a perda de s indicador de plural na variedade popular, tanto quanto a morfologia verbal.

 

 

A morfologia nominal e verbal não apresentam essas simplificações, exceto em alguns falares regionais.

 

O quadro dos pronomes pessoais foi alterado para eu / você / ele / nós-a gente / eles.

A morfologia verbal se reduz a 4 formas diferentes: falo, fala, falamos, falam. Em consequência, mudarão as regras de concordância do verbo com o sujeito.

 

 

O quadro dos pronomes pessoais permanece como eu / tu / ele / nós / vós / eles.

A morfologia verbal dispõe de 6 formas diferentes: falo, falas, fala, falamos, falais, falam.

 

Os pronomes reflexivos tendem a desaparecer: nos nossos dias não usa mais saia.

 

 

Os pronomes reflexivos se mantêm. O reflexivo si, em isto é para si, refere-se ao interlocutor.

 

Sintaxe

 

Português Brasileiro

Português Europeu

 

No tratamento, usa-se você quando há intimidade, e o senhor nas situações informais.

 

Nas regiões em que se mantém o tratamento informal tu, o pronome você marca a busca de certo distanciamento.

 

 

Até o séc. XVI, usava-se tu para o tratamento informal e vós para o tratamento formal.

Vós era substituído por Vossa Mercê para tratar o rei, depois os nobres (e aí o rei passou a ser tratado por Vossa Majestade, Vossa Alteza).

Vossa Mercê foi em seguida aplicado ao tratamento cerimonioso da burguesia, vindo finalmente a concorrer com tu.

 

 

O pronome ele pode funcionar como objeto direto, redobrar uma construção de tópico, e aparecer na oração relativa copiadora, respectivamente: Maria viu ela / A Maria, ela ainda não chegou / O menino que ele chegou.

 

 

Ele só funciona como sujeito, o objeto direto pronominal é expresso por o, e não existem construções de tópico nem relativas copiadoras.

 

Os pronomes átonos, por serem na verdade semiátonos, podem iniciar oração, preferindo-se a próclise: Me passa o bife.

 

 

Os pronomes átonos não podem iniciar oração, preferindo-se a ênclise: Passa-me o bife.

 

Usa-se ter em lugar de haver nas construções existenciais: Hoje não tem comida.

 

 

Usa-se apenas haver nas construções existenciais: Hoje não há comida.

 

Verbos de movimento são construídos com a preposição em: Vou na feira.

 

 

Verbos de movimento são construídos com a preposição a: Vou à feira.

 

Ocorre a negação dupla: não sei não.

 

 

Prefere-se a negação simples: não sei.

 

Amplia-se o uso da perífrase estar + gerúndio: estou falando.

 

 

Prefere-se a perífrase estar + a + infinitivo, mais recente que a anterior: estou a falar.

 

Preenche-se o lugar de sujeito e elide-se o objeto direto: Ele já viu Ø.

O sujeito elíptico é interpretado como um participante indeterminado: usa saia quer dizer alguém usa saia.

 

 

Elide-se o sujeito e preenche-se o lugar do objeto direto com o clítico o: Øo viu.

O sujeito elíptico é interpretado como um participante determinado: usa saia quer dizer determinada pessoa usa saia.

 

O sujeito vem anteposto ao verbo, e o objeto direto, posposto: Maria comeu o chocolate.

 

 

O sujeito pode vir posposto ao verbo, antepondo- se o objeto direto: O chocolate comeu-o Maria.

 

Na oração infinitiva, o sujeito preposicionado aparece com pronome oblíquo: isto é para mim fazer.

 

 

Nessa oração, o pronome permanece no caso reto: isto é para eu fazer.

Obviamente que não considero aqui as divergências entre vocabulários pois estas são facilmente encontradas até mesmo dentro de um prédio na Av. Paulista, quem dirá entre dois países separados pelo Oceano Atlântico! Ainda assim, percebemos que há muita distinção entre o que se fala aqui e o que se fala em Portugal.

 

Engana-se você, caro leitor, que acha que estou delirando ao acreditar em uma língua independente do povo brasileiro. Essa ideia já é discutida desde de 1826, veja, QUATRO anos após a proclamação da Independência e o senhor Domingos Borges de Barros, o Visconde de Sabugosa Pedra Branca, já o fazia num texto escrito ao Atlas Etnográfico do Globo, do italiano Adrien Balbi.

 

Evidentemente há quem defenda a língua portuguesa do Brasil como algo díspar ao português português. A pós-doutora Vanete Santana-Dezmann** afirma que, pelo fato de ter havido a gramatização do nosso idioma, este pode sim ser destacado como país e não como colônia no planeta das línguas.

Ela afirma que esse processo pode ter sido iniciado em 1835 com a publicação do Compêndio da gramática da língua nacional, de Antônio Álvares Pereira Coruja.

 

Marcos Bagno, grande linguista brasileiro, foi quem pôs essa ideia na minha cabeça. Ao ler Preconceito Linguístico o que é, como se faz, pude refletir e perceber que muito daquilo que eu tinha de ideal sobre a língua, especificamente falando sobre a tara que eu tinha pela gramática, como eu estava errado!

No entanto, eu me redimi. A tal ponto de dedicar esse espaço na internet só para esses pequenos devaneios linguísticos, que espero resultar na diminuição desse tipo de preconceito.

 

Gabriel Rodrigues

 

*Ataliba T. de Castilho é graduado em Letras Clássicas pela USP, doutor em Linguística, livre-docente e professor titular em Filologia e Língua Portuguesa pela mesma universidade, da qual é professor emérito

 

**É professora de Tradução, Língua e Cultura na Universidade “Johannes Gutenberg”, na Alemanha. Fez pó-doutorado em Estudos de Tradução na USP.

 

 

 

Referências bibliográficas

 

·         BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como faz. 49. ed. São Paulo: Edições Loyola. 2007;

·         CASTILHO, Ataliba T. A hora e a vez do português do Brasil. 2017. Disponível em:< https://museudalinguaportuguesa.org.br/wp-content/uploads/2017/09/A-hora-e-a-vez-do-portugues-brasileiro.pdf>. Acesso em: 06/09/2020;

·         SANTANA. V. D. Brasileiro ou Português?! O nosso idioma é a Língua Portuguesa do Brasil. 2018. Disponível em:< https://www.brmais.net/blog/brasileiro-ou-portugues-!-o-nosso-idioma-e-a-lingua-portuguesa-do-brasil>. Acesso em: 06/09/2020

 

 

 

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