Às margens do Rio Ipiranga, por volta das 16h30 do dia sete de setembro de 1822, D. Pedro I, no alto do lombo de uma mula e acometido por uma bela diarreia, bradou o “Grito da Independência” - ‘Independência ou morte!’ (seguido de uma flatulência), criando esse excelentíssimo feriado nacional que quase sempre podemos emendar.
E nesse sete de setembro de 2020,
quero aproveitar a data (que cai numa segunda-feira, que beleza!), para fazer
minhas primeiras análises agramaticais a
respeito da língua que se fala aqui no Brasil, o brasileirês. Mentira, é o
português mesmo mas por mera convenção.
Há alguns conceitos linguísticos dos
quais não conseguimos não retomá-los para quando de uma explicação...
linguística. Conhecimentos como as variedades que as línguas têm, que toda
língua é fluida e viva, ou seja, não é estática, imutável, mas variável, entre
outros. Isso é algo que sempre será levado em consideração toda vez que analisado
de forma ampla.
E, partindo desses princípios,
podemos entender que a língua utilizada aqui no Brasil é completamente
diferente da que se fala nas terras lusitanas, embora tenham o mesmo nome!
Contudo, há algumas diferenças importantes que nos levam a crer que temos sim
uma independência linguística.
Vejamos a seguir uma tabela
comparativa retirada do artigo do pesquisador Ataliba T. Castilho* (USP, CNPq).
Fonética e fonologia
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Português
Brasileiro |
Português
Europeu |
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A vogal e se mantém como anterior média fechada
antes de palatal: espelho, fecho.
Há 5 vogais átonas pretônicas, e todas soam claramente: a, e, i,
o, u. Todas elas são
pronunciadas, e assim, não se confunde de frente com diferente.
Nessa distribuição, não há
distinção entre ê e è, e por isso pronuncia-se da
mesma forma pregar um prego e pregar na igreja.
Há 3 vogais átonas finais: a, i, u, estes escritos com e, o: pata, pede,
peço. |
Há 8 vogais tônicas: a, ä, ê, è, i, ô, ò, u, distinguindo-se
um a central baixo, como no
presente falamos, de um a mais
alteado, como no pretérito falämus.
A vogal e antes de palatal é dita â: ixpâlhu, fâchu.
Há 8 vogais átonas pretônicas, em que ê fechado move-se para ë,
como em pëqueno, mas a tendência é omiti-las, como em telefone [tulfòn],
pedido [p’didu], etc. Pedir num hotel um apartamento de frente
será entendido como “um apartamento diferente”. Nessa
distribuição, distingue-se ê de è, e por isso
pronuncia-se diferentemente prêgar um prego e prègar
na igreja.
Há 3 vogais átonas finais: ä, ê, u.
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O ditongo oral ey
pode manter-se ou monotongar-se
(terreiru
/ terrêru) e o ditongo nasal ~ey mantêm-se, como em bem,
dito b~ey.
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Esses ditongos soam como
äy e ãy: t’rräyru, bãy. |
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Ditonga-se a vogal final seguida de sibilante: luis (luz),
atrais (atrás).
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Não há essa ditongação. |
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Sílabas terminadas por oclusiva
recebem uma vogal, transformando-se em sílabas abertas: adevogado,
abissoluto, pissicologia.
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Essas sílabas continuam
fechadas: advogado, absoluto, psicologia. |
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Pronuncia-se da mesma
forma a consoante –l e a semivogal –w
em posição final: o advérbio mal e o adjetivo
mau são pronunciados da mesma maneira.
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O –l é lateralizado,
como no PB do Rio Grande do Sul, não se confundindo com a semivogal –w. |
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O r pode ser vibrante
simples (caro), vibrante múltiplo anterior (carro),
vibrante múltiplo posterior (káRu) ou velar surda
(káxu).
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Predomina a vibrante múltipla
anterior, como no espanhol. |
Morfologia
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Português
Brasileiro |
Português
Europeu |
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Simplifica-se a
morfologia nominal, com a perda de –s indicador de plural na
variedade popular, tanto quanto a morfologia verbal.
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A morfologia nominal e
verbal não apresentam essas simplificações, exceto em alguns falares regionais. |
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O quadro dos pronomes
pessoais foi alterado para eu / você / ele / nós-a gente / eles.
A morfologia verbal se
reduz a 4 formas diferentes: falo, fala, falamos, falam. Em
consequência, mudarão as regras de concordância do verbo com o sujeito.
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O quadro dos pronomes
pessoais permanece como eu / tu / ele / nós / vós / eles. A morfologia verbal dispõe
de 6 formas diferentes: falo, falas, fala, falamos, falais, falam. |
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Os pronomes
reflexivos tendem a desaparecer: nos nossos dias não usa mais saia.
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Os pronomes
reflexivos se mantêm. O reflexivo si,
em isto é para si, refere-se ao interlocutor. |
Sintaxe
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Português
Brasileiro |
Português
Europeu |
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No tratamento, usa-se você
quando há intimidade, e o senhor
nas situações informais.
Nas regiões em que se
mantém o tratamento informal tu, o
pronome você
marca a busca de certo distanciamento.
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Até o séc. XVI, usava-se
tu
para o tratamento informal e vós
para o tratamento formal. Vós era substituído por Vossa Mercê
para tratar o rei, depois os nobres
(e aí o rei passou a ser tratado
por Vossa Majestade, Vossa Alteza). Vossa Mercê foi em seguida aplicado
ao tratamento cerimonioso da burguesia, vindo finalmente a concorrer
com tu.
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O pronome ele
pode funcionar como objeto direto, redobrar uma construção de
tópico, e aparecer na oração relativa copiadora, respectivamente: Maria
viu ela
/ A Maria, ela
ainda não chegou / O menino que ele chegou.
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Ele só funciona como sujeito, o objeto direto
pronominal é expresso por o, e não existem construções de
tópico nem relativas copiadoras. |
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Os pronomes átonos,
por serem na verdade semiátonos, podem iniciar oração, preferindo-se a
próclise: Me
passa o bife.
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Os pronomes
átonos não podem iniciar oração,
preferindo-se a ênclise: Passa-me o bife. |
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Usa-se ter em lugar de haver nas construções existenciais: Hoje não tem comida.
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Usa-se apenas haver
nas construções existenciais: Hoje não há comida. |
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Verbos de
movimento são construídos com a preposição em: Vou na feira.
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Verbos de movimento são
construídos com a preposição a: Vou à feira. |
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Ocorre a negação dupla: não sei não.
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Prefere-se a negação
simples: não sei. |
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Amplia-se
o uso da perífrase estar + gerúndio: estou
falando.
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Prefere-se a perífrase
estar + a + infinitivo, mais
recente que a anterior: estou a falar. |
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Preenche-se o lugar de sujeito
e elide-se o objeto direto: Ele já viu Ø.
O sujeito elíptico
é interpretado como um participante indeterminado: usa saia quer dizer alguém usa saia.
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Elide-se o sujeito e preenche-se o
lugar do objeto direto com o clítico o: Ø já o viu. O sujeito elíptico
é interpretado como um participante determinado: usa saia quer dizer determinada pessoa usa saia. |
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O sujeito vem anteposto
ao verbo, e o objeto direto, posposto: Maria
comeu o chocolate.
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O sujeito pode vir
posposto ao verbo, antepondo- se o objeto direto: O chocolate comeu-o Maria. |
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Na oração infinitiva,
o sujeito preposicionado aparece
com pronome oblíquo: isto é para mim fazer.
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Nessa oração, o pronome
permanece no caso reto: isto é para eu fazer. |
Obviamente que não considero aqui
as divergências entre vocabulários pois estas são facilmente encontradas até
mesmo dentro de um prédio na Av. Paulista, quem dirá entre dois países
separados pelo Oceano Atlântico! Ainda assim, percebemos que há muita distinção
entre o que se fala aqui e o que se fala em Portugal.
Engana-se você, caro leitor, que
acha que estou delirando ao acreditar em uma língua independente do povo
brasileiro. Essa ideia já é discutida desde de 1826, veja, QUATRO anos após a
proclamação da Independência e o senhor Domingos Borges de Barros, o Visconde
de Sabugosa Pedra Branca, já o fazia num texto escrito ao Atlas Etnográfico do Globo, do italiano
Adrien Balbi.
Evidentemente há quem defenda a
língua portuguesa do Brasil como algo díspar ao português português. A
pós-doutora Vanete Santana-Dezmann** afirma que, pelo fato de ter havido a
gramatização do nosso idioma, este pode sim ser destacado como país e não como
colônia no planeta das línguas.
Ela afirma que esse processo pode
ter sido iniciado em 1835 com a publicação do Compêndio da gramática da língua nacional, de Antônio Álvares
Pereira Coruja.
Marcos Bagno, grande linguista brasileiro, foi quem pôs essa ideia na minha cabeça. Ao ler Preconceito Linguístico o que é, como se faz, pude refletir e perceber que muito daquilo que eu tinha de ideal sobre a língua, especificamente falando sobre a tara que eu tinha pela gramática, como eu estava errado!
No entanto, eu me redimi. A tal
ponto de dedicar esse espaço na internet só para esses pequenos devaneios
linguísticos, que espero resultar na diminuição desse tipo de preconceito.
Gabriel Rodrigues
*Ataliba T. de Castilho é
graduado em Letras Clássicas pela USP, doutor em Linguística, livre-docente e
professor titular em Filologia e Língua Portuguesa pela mesma universidade, da
qual é professor emérito
**É professora de Tradução,
Língua e Cultura na Universidade “Johannes Gutenberg”, na Alemanha. Fez
pó-doutorado em Estudos de Tradução na USP.
Referências
bibliográficas
·
BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como faz. 49. ed. São Paulo: Edições Loyola. 2007;
·
CASTILHO, Ataliba T. A hora e a vez do português do Brasil. 2017. Disponível em:<
https://museudalinguaportuguesa.org.br/wp-content/uploads/2017/09/A-hora-e-a-vez-do-portugues-brasileiro.pdf>.
Acesso em: 06/09/2020;
·
SANTANA. V. D. Brasileiro ou Português?! O
nosso idioma é a Língua Portuguesa do Brasil. 2018. Disponível em:< https://www.brmais.net/blog/brasileiro-ou-portugues-!-o-nosso-idioma-e-a-lingua-portuguesa-do-brasil>.
Acesso em: 06/09/2020


